Servidora é exonerada após criticar fala capacitista de Flávio Bolsonaro

Reprodução do Diário Oficial do Governo do Estado de São Paulo, de 27 de oububro, registrando a exoneração da servidora Silvana Gimenes.
O debate para presidente da República, realizado pela Rede Globo de Televisão, no dia 23 de outubro último, foi marcado por uma frase capacitista do candidato Flávio Bolsonaro (PL) contra seu adversário, Luís Inácio Lula da Silva (PT), Leia mais aqui, reeleito dois dias depois. Logo em suas primeiras intervenções, o candidato do PL afirmou que Lula “dava com uma mão e tirava com os nove dedos”, uma alusão à deficiência física do petista, que perdeu o dedo mínimo da mão esquerda quando tinha 17 anos e trabalhava como torneiro mecânico. Lula pediu direito de resposta e exigiu desculpas do adversário, afirmando ter sido uma frase ofensiva a todos os trabalhadores que, assim como ele, eram obrigados a trabalhar em condições mínimas de segurança, de madrugada e, muitos deles, menores de idade. A frase gerou revolta em muitas pessoas com deficiência, que se manifestaram em grupos de whatsapp e redes sociais.
Uma delas foi a servidora Silvana Gimenes, 65, que foi exonerada do cargo de coordenadora de Desenvolvimento de Programas, na Secretaria de Direitos das Pessoas com Deficiência do Estado do São Paulo, do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). Ela foi demitida após criticar o comentário capacitista de Flávio Bolsonaro, segundo relatou o blog Viver Sem Limites, do Estadão. “Gestores públicos devem trabalhar para todos, independente de cor, credo, classe social ou coloração política”.
Socióloga e mestre em administração, Silvana Gimenes, “mulher bissexual com paralisia cerebral”, como ela se apresenta, foi exonerada dois dias após publicar no Instagram uma crítica à fala capacitista de Flávio Bolsonaro. “Ao ouvir o 22 (relativo ao número do PL na urna) chamar Lula de ‘nove dedos’, apenas constatei o que sempre digo, que o preconceito, o racismo, o capacitismo, a LGBTfobia, podem estar escondidos, e só quem é alvo sabe o quanto é doloroso ser piada por ter uma deficiência ou uma doença rara ou mesmo uma condição congênita”, escreveu Silvana.
Na segunda-feira, dia 26 de outubro, ela sequer conseguiu chegar no local de trabalho onde atuava há três anos. Ao atender um telefonema no caminho para secretaria estadual, foi informada que seria demitida. A exoneração foi publicada no dia seguinte. “Quero deixar claro que o ato da minha exoneração partiu do secretário da pasta (Marcos da Costa), e não do governador Tarcísio de Freitas, sendo realizada de forma abrupta”, afirmou Silvana ao blog Vencer Limites. “Somada a alguns fatores, como o momento político, por ocorrer em uma pasta de governo que cuida das políticas públicas voltada às pessoas com deficiência, cujo secretário também é pessoa com deficiência, isso reverberou tanto e está gerando essa consciência do que é o capacitismo”, disse.
Em nota oficial, o secretário Marcos da Costa afirmou que nenhuma questão pessoal ou manifestação política da servidora motivou sua exoneração. “A decisão foi de minha exclusiva responsabilidade e decorreu de razões estritamente administrativas, relacionadas à necessidade de reorganizar atribuições e funções na estrutura da Secretaria. Desde que assumi a Secretaria, no exercício de meu primeiro cargo público, tenho conduzido a gestão com base em critérios técnicos e no compromisso com os direitos das pessoas com deficiência”, declarou. Meio óbvio que ele não admitiria as reais intenções, mas a coincidência das datas grita a plenos pulmões.
“Sou grata por ter sido um vetor que trouxe à tona o papel das pessoas com deficiência na sociedade, no processo político do Estado e do nosso País. Que as pessoas percebem que os gestores públicos devem trabalhar para todos, independente de cor, credo, classe social ou coloração política”, destacou a socióloga.
Silvana Gimenes contou que tem recebido apoio de militantes, por meio de notas públicas de personalidades, como Luciana Trindade, a Gata de Rodas, Mãe Silvia Oyayemio Shiwa, Irina Bacci do Movimento SP_Inclusiva, a APOLGBT-SP (Associação da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo), a Aliança Nacional LGBTI. Ela citou ainda vídeos do deputado federal Paulo Teixeira (PT-SP) e das deputadas estaduais paulistas Beth Sahão (PT) e Monica Seixas (Psol). “São tantas mensagens de carinho, que isso reacendeu em mim a certeza de que o movimento de pessoas com deficiência pode promover a mudança que desejamos. E que essa é uma pauta importante, deve estar nas diretrizes básicas de qualquer instância de governo”, defendeu Silvana Gimenes.


Sem nenhum comentário