O sol ainda brilha na linha do Equador

07/04/2017 Deficiência Motora, Destaques, Notícias, Paulinho Oliveira 0

O sorriso do homem da foto é espontâneo. Não se trata de um sorrir fabricado à custa de marketing eleitoral para angariar votos. Trata-se, isso sim, de uma arma poderosa em favor de um povo que vem sofrendo as agruras de uma crise econômica com ingredientes dramáticos como desemprego, inflação e endividamento externo.

O dono do sorriso é Lenín Moreno, que foi eleito, na última semana, presidente do Equador, com 51,16% dos votos, vencendo, em segundo turno, o banqueiro, empresário e supernumerário da Opus Dei Guillermo Lasso. Lenín Moreno, atual vice-presidente equatoriano, braço direito de Rafael Correa, é palestrante motivacional, com o objetivo de levar adiante os conceitos de alegria, harmonia e humor. As teorias que ensina, aplicou-as para si mesmo, a partir de 1998, quando, após sofrer um assalto, foi ferido à bala pelas costas, o que lhe custou o movimento das pernas, para sempre. Fez da sua dor motivação para viver e dar ânimo a tantos outros que sofrem as mesmas dores, físicas e psicológicas, decorrentes da limitação de movimentos.

A vitória do humor de Lenín Moreno sobre o pavor de Guillermo Lasso (que, como Aécio Neves, no Brasil, também é mau perdedor) é o sol que ainda brilha na linha do Equador, resistente ante as trevas da direita que vem crescendo, assustadoramente, na América do Sul. Sem fazer fronteira com o Brasil, do golpista Michel Temer, e com a Argentina, do reacionário Mauricio Macri, mas cercado pelos direitistas Pedro Pablo Kuczynski, do Peru, e Juan Manuel Santos, da Colômbia, Lenín Moreno terá, a partir de 24 de maio, quando tomar posse, um desafio, talvez, maior que o de conviver com a paraplegia há quase vinte anos – mostrar que o socialismo, encarnado hoje, no Equador, por Rafael Correa, ainda é a melhor alternativa para a redução da desigualdade social e uma melhor qualidade de vida do povo latinoamericano.

As eleições presidenciais equatorianas tiveram a assistência de observadores internacionais, e não há notícias de fraude, muito embora o mau perdedor Guillermo Lasso questione (sem provas) a lisura do processo. Desde 2007, o país convive com a estabilidade democrática, evento raro em um país repleto de golpes de Estado e mandatos presidenciais bruscamente interrompidos. A democracia plena, portanto, ainda é bastante jovem, tanto que Lenín Moreno será o presidente equatoriano de número 108 em 187 anos de República – uma média de 1,7 presidentes por ano.

Quando assumir a presidência do Equador, Lenín Moreno se tornará, salvo engano, o segundo chefe de Estado da História com deficiência motora – o único fora Franklin Delano Roosevelt, presidente dos Estados Unidos entre 1933 e 1945, paraplégico por conta de uma poliomielite que adquirira em 1921. Só por isso, a eleição de Moreno já merece lugar cativo na historiografia latinoamericana, uma razão a mais para estampar o sorriso da foto. Porém, para o Equador continuar sendo o sol que brilha, em uma América Latina cada vez mais turbulenta, será preciso muito mais que terapias do riso e técnicas motivacionais para Lenín Moreno, homem por demais qualificado para chefiar os destinos do povo equatoriano.

Boa sorte, pois, ao cadeirante Lenín Moreno, presidente eleito da República do Equador.

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